O poder da palavra falada: gênese e sentidos dos manuais para discursos no Brasil da virada do século XIX para o século XX

November 10, 2020
“Oh! o poder da palavra pronunciada misteriosamente!”. Com essas palavras, o jornalista, cronista e escritor João do Rio destaca o poder da fala nas ruas da cidade do Rio de Janeiro no início do século XX. Gritos de vendedores ambulantes, orações, canções e ritmos os mais diversos atestam, em seus escritos, a presença notável da voz no cenário urbano. Assim, suas crônicas me fizeram problematizar o fato de que os estudos relacionados a tal período recaem privilegiadamente sobre a presença da escrita e dos impressos. Ainda que estes últimos sejam fundamentais para a compreensão da sociedade existente à época, passei a me preocupar em entender a relação dos textos escritos com os sons e as falas. Afinal, numa sociedade majoritariamente analfabeta, seria de se esperar que formas de comunicação oral tivessem uma interação expressiva com o material impresso. 
 
Foi assim que me interessei por manuais de oratória surgidos no final do século XIX e início do século XX. O orador familiar de Lyrio Ferdinand, O orador popular de José Alves Castilho, O orador do povo de Aníbal Demóstenes e O orador moderno de Tycho Brahe eram títulos que sugeriam tentativas de se utilizar os livros para intervir no mundo da fala. Esses autores e obras, hoje obscuros, parecem ter gozado de considerável penetração no público consumidor de livros, dadas as suas sucessivas tiragens e a disputa por esse filão do mercado por diversas editoras existentes à época. O desafio residia então em como interpretar esse material.
 
A leitura desses livros revela uma série de modelos para discursos a serem proferidos em ocasiões solenes. Batismos, aniversários, casamentos, funerais, comemorações cívicas, festas de Natal e Ano Novo, remetem ao que antropólogos classificam de ritos de passagem. Por essa razão, análises de estudiosos a respeito desses fenômenos foram fundamentais para uma tentativa de compreensão daquelas fontes. Algumas informações disponíveis nos prefácios daqueles livros ou em jornais de época indicam que os manuais para discursos surgiram como uma adaptação dos manuais epistolares em voga à época. Ou seja, numa sociedade em que a comunicação oral desempenhava papel destacado, emergiram livros que ofereciam exemplos práticos de como interferir no mundo da fala.
 
Tais obras agrupam uma grande variedade de elogios aos ritos de passagem do catolicismo. Essa proposta de intervenção suscitou a questão de que se a sociedade com a qual interagiam era amplamente católica. Os escritos do próprio João do Rio problematizam essa visão, porém, dado que enfatizam que as práticas religiosas cotidianas no mencionado período eram marcadas pela presença de ritos religiosos de influência africana ou do catolicismo popular. Dessa forma, os guias para discursos pareciam se alinhar à tentativa do clero, no final do século XIX, em romanizar o catolicismo de fato existente no país. Assim, num momento de intensa modernização da economia e das relações sociais, em escala internacional, essas obras propunham um reencantamento do mundo nos moldes do catolicismo oficial.
 
 
Esse aparente paradoxo é apenas um dos vários que surgiram durante a pesquisa. Ao mesmo tempo que faziam o elogio do trabalho e do esforço individual em alguns discursos, os manuais valorizavam relações paternalistas, principalmente a caridade; enalteciam a maior autonomia conquistada pelas mulheres, mas consideravam que o papel destas últimas, por suposta natureza, era o de ser mães e esposas. As aparentes contradições se multiplicavam de tal modo, muitas vezes no interior de um único livro, que tornavam difícil a interpretação daquele material. Foi somente o contato com uma bibliografia renovada sobre o processo global de modernização daquela conjuntura que me permitiu lidar com essas supostas oposições. Nesse sentido, novos estudos apontam que a modernização não é um fenômeno uniforme e linear, mas sim um processo fraturado, ou seja, um movimento que agrega tanto características modernas quanto tradicionais.
 
E os agentes privilegiados desses processos, em diversas partes do globo, podem ser entrevistos nas camadas médias. Ao mesmo tempo que estas últimas valorizavam o esforço individual e o mérito, prendiam-se a rígidas hierarquias sociais e a estritas divisões de gênero. E os manuais para discurso pareciam ser justamente voltados para esse público. Em suas páginas, é possível notar uma busca por distinção social através da fala. Os anúncios desses livros nos jornais de época revelam que eles não eram produtos demasiadamente caros, nem extremamente baratos. Eram mercadorias de valor intermediário, muitas vezes vendidas com um papel ou acabamento um pouco mais refinados, como se fossem voltadas para os extratos médios da sociedade. 
 
Essa hipótese poderia ser reforçada com os numerosos exemplos de modelos de discursos para a chegada ou a partida de professores, médicos, advogados, militares e juízes. Em tais propostas de ritos de agregação ou separação, esses profissionais das camadas médias eram investidos de status ou honra. Trata-se de fenômeno similar àqueles que Max Weber identifica em sociedades tradicionais, em situações em que indivíduos que se distinguem pela riqueza ou pela educação tornam-se portadores de honra social. Por outro lado, a ascensão a essas posições de prestígio abria a possibilidade, nos próprios discursos, para que tais indivíduos fossem instados a dedicar parte de seus esforços à prestação de serviços gratuitos à comunidade ao seu redor, sob a forma de caridade. Tal abertura talvez explique o consumo desses manuais pelas camadas mais baixas da população, possivelmente interessadas não somente na elevação de status de alguns indivíduos, como também na possibilidade de cobrar-lhes tarefas e serviços pelos quais não podiam pagar. 
 
Por meio dos manuais para discursos, portanto, os extratos médios da sociedade brasileira podiam disseminar valores e tecer comportamentos tanto modernos quanto tradicionais, uma caraterística observável igualmente em países latino-americanos, africanos e asiáticos, bem como em países europeus e norte-americanos.
 
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Paper's citation: Queler, J. J. (2020). O poder da palavra falada: Gênese e sentidos dos manuais para discursos no Brasil da virada do século XIX para o século XX. Latin American Research Review, 55(2), 278–290. DOI: http://doi.org/10.25222/larr.503  

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Jefferson José Queler
Professor adjunto de história contemporânea na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Graduado em história pela Universidade de São Paulo (USP), é mestre e doutor em História pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Pesquisa temas como política, imprensa, escrita e oralidade na história do Brasil republicano.