Harshtag Machado de Assis tá bombando

August 27, 2020
Recentemente o autor afro-brasileiro Machado de Assis voltou aos holofotes e às páginas de jornais tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil devido ao anúncio e lançamento de novas traduções de seu romance mais famoso. Pode, ainda, parecer estranho para muitos que o autor brasileiro mais celebrado receba aqui o epíteto “afro-brasileiro” uma vez que há muito tempo instaurou-se no imaginário popular a imagem de um grande autor do século XIX que na sua obra tratava de assuntos alheios à escravidão e à condição dos afrodescendentes e que, assim sendo, somente poderia se tratar de um homem branco. Tal imagem se fortaleceu de tal maneira que o banco Caixa Econômica Federal fez ir ao ar nas televisões no ano de 2011 um comercial no qual o ator que representava o papel de Machado era um homem branco. O comercial causou reações de ordem diversas e o banco achou por bem produzir outra versão, desta feita com um autor afrodescendente. 
 
Recentemente também, uma fotografia “perdida” de Machado, que não deixa dúvidas quanto a sua constituição fenotípica, foi encontrada em um arquivo na Europa e tornada pública e de fácil acesso na internet. Tal descoberta foi uma importante adição a um processo que já estava em marcha de recuperação da imagem afro-brasileira do escritor. O processo de branqueamento físico e simbólico de pessoas, famosas ou anônimas, no Brasil é um fato bastante estudado e no caso de Machado de Assis sua obra também passou a ser lida a partir de uma ótica de branqueamento, ou seja, na prática, todos seus personagens, que não possuíam uma descrição física precisa, passaram a ser lidos como representações de pessoas brancas. Porém, faz já pelos menos duas décadas que estudiosos da sua obra questionam tanto a suposição de que o autor era avesso aos temas pertinentes aos afrodescendentes e à escravidão quanto a de que o autor aspirou de alguma maneira associar-se à parcela branca da população. Como contribuição a essa discussão o artigo “O ‘Recitatif’ de Machado de Assis: Para uma leitura negra de ‘Missa do galo’ e ‘Teoria do medalhão’ ” traz leituras desses que são dois de seus contos mais famosos e, ao postular a possibilidade de que algumas de suas personagens não sejam brancas, apresenta novos vieses interpretativos para os contos.
 
Em “Teoria do medalhão,” conto que, por via de regra ser lido como um diálogo entre dois homens brancos, sempre foi interpretado como uma crítica às elites brancas, somente há uma descrição física de um dos personagens que dialogam depois do jantar de comemoração dos 21 anos de Janjão. Este, segundo seu pai, é dono de “longos bigodes”. E se o jovem não fosse branco como até então se há suposto? Com certeza um novo diapasão de interpretações se abriria imediatamente. Os conselhos de pai para filho se dariam noutro contexto e, portanto, novas possibilidades de interpretação se abririam. O medalhão, então, a quem nos acostumamos a ver como uma figura negativa, “vendida,” de um sujeito que ocupa posição de destaque sem que tenha nenhum mérito para isso cobra status de irônica metáfora para a real e desconfortável posição de uma pessoa afro-brasileira que transita nos meios mais abastados daquela sociedade por meio das estratégias elencadas no conto pelo “pai coruja” de Janjão.
 
Em “Missa do galo,” D. Conceição é a única personagem de quem o narrador, insistentemente, diga-se de passagem, expõe traços fenotípicos. E se, volto a perguntar, o narrador, Nogueira, não fosse branco como tacitamente nos acostumamos a interpretá-lo? Uma das consequências dessa mudança de postura seria a possibilidade de ver o interessante e instigante colóquio narrado no conto e suas nuances necessariamente pensadas em outros termos. Se lermos o conto como a estória de um jovem branco, que anos depois recupera suas memórias sobre um evento, para o qual o mesmo confessa não ter explicação, ocorrido muitos anos antes quando ele tinha apenas 17 anos, por meio de uma narrativa, marcada por sutilidades, dessa sensual e confusa conversa com uma senhora branca casada, necessariamente o conto evoca e invoca uma miríade de interpretações, que são diferentes, porém, de outra miríade de interpretações se lermos o conto como a historia de um jovem afro-brasileiro. Afinal de contas, nas complicadas relações no contexto da sociedade racista do Brasil do século XIX, as interdições, explícitas e implícitas, e sutis relacionadas à mera existência de um espaço comum para que um jovem (afro-brasileiro) e uma senhora branca casada mantivessem uma conversa que provoca interpretações da ordem do sensual, cobram importância e significados distintos se o rapaz é lido como um personagem que não é branco. 
 
Duvidam de tudo o que fica aqui dito, caros leitores, caras leitoras? Deixo então o convite/desafio para a leitura do artigo e, quem sabe, talvez, para o início de uma produtiva conversa sobre a obra de Machado de Assis.
 
 
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Paper's citation: Dutra, P. (2020). O “Recitatif” de Machado de Assis: Para uma leitura negra de “Missa do galo” e “Teoria do medalhão”. Latin American Research Review, 55(1), 122–134. DOI: http://doi.org/10.25222/larr.467
 
 

 

About Author(s)

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Paulo Dutra
Paulo Dutra é doutor em literatura latino-americana, Purdue University (EUA), e assistant professor na University of New Mexico (EUA). Tem trabalhos acadêmicos publicados sobre o grupo de rap Racionais MC’s e sobre questões raciais na obra de Machado de Assis e é autor do livro de contos Aversão oficial: resumida (Malê, 2018) e do livro de poemas abliterações (Malê, 2019). Desde 2020 mantem o canal poetapaulodutra coMvida no YouTube. Instagram: poetapaulodutra Instagram profpdutra