Não há silêncio: movimentos feministas na América Latina e Caribe

December 28, 2019

América Latina, berço da artista Frida Khalo, ativista política Marielle Franco e Nobel da Paz Rioberta Menchú. Também América Latina, região onde as mulheres ainda são vistas como desintelectualizadas, despolitizadas e sem voz.

Globalmente, homens e mulheres ainda replicam uma lógica colonial defendendo que as mulheres que estão na “periferia do mundo” precisam ser salvas de seu próprio povo, como colocado na crítica de Spivak (2012): "homens brancos estão salvando mulheres de pele escura de homens de pele escura”. Antes de seguir, cabe aqui pontuar que as estruturas patriarcais presentes na América Latina afetam, de fato, o alcance da almejada igualdade de gênero. No entanto, essa dinâmica - que não se restringe à América Latina - não cala ou diminui a força das mulheres latino-americanas que seguem se unindo e conquistando espaços historicamente tido como masculinos. Os movimentos dessas mulheres refletem a heterogeneidade do continente. Estão presentes nas áreas urbanas, rurais, quilombolas, indígenas, para citar algumas, enfrentando diferentes níveis discriminatórios a depender da interseccionalidade de suas existências.

MOVIMENTOS URBANOS

A região da América Latina e Caribe acompanha a tendência mundial em que se observa uma maior presença das mulheres nos diferentes níveis educacionais. Segundo relatório realizado pela Organização das Nações Unidas (2014) para cada 128 mulheres matriculadas no ensino superior estão 100 homens e no ensino fundamental a razão é de 107 meninas para 100 meninos. No entanto, faz-se a necessidade de analisar os dados com um recorte racial. No Brasil, por exemplo, enquanto 17.7% da mulheres brancas completaram o ensino superior, essa é uma realidade para apenas 6.7% das mulheres negras (IBGE, 2010). Para aquelas que usufruem destes acessos, a permanência é que se torna um desafio, seja pela falta ou má qualidade de transporte público, falta de creches, diversas formas de assédio enfrentados no emprego, escola e/ou nas ruas, pressão social para se dedicarem à família em detrimento da carreira profissional entre outros muitos fatores. No mais, há a luta pelo direito à vida no continente onde estão 4 dos 5 países com mais casos de feminicídio do mundo, sendo estes: El Salvador, Colômbia, Guatemala e Brasil (Vilela, 2019).

É deste contexto que movimentos como o Ni Una Menos, surgido na Argentina em 2015, chegou às ruas do Chile, Peru, Bolívia, Paraguai, Uruguay, El Salvador, Guatemala, Mexico transbordando-se, inclusive, aos Estados Unidos e Espanha (The Guardian, 2016). Este movimento denunciou a insegurança a qual as mulheres estão expostas na região. Ao Ni Una Menos, juntaram-se outros similares movimentos a exemplo do #24A no México e a Red Naranja na Venezuela.

Como supracitado, as desigualdades de raça e classe condicionam as mulheres a espaços urbanos de acesso restrito às beneficies da infra-estrutura básica. 25% das das mulheres negras no Brasil não tem acesso ao sistema de esgoto, enquanto que essa é uma realidade para 17% das mulheres brancas (IBGE, 2017 apud BKR, n.d.) Com especial atenção às desigualdades que surgem das interseccionalidades raciais enfrentada pelas mulheres, surge em 1992 a Rede de Mulheres Afro-Latinas, Afro-Caribenhas e da Diáspora, na República Dominicana, a Rede Latino-Americana e Caribenha de Mulheres Negras, em San Bernardo em 1987, entre outras organizações que lutam pelo fim da discriminação não apenas de gênero, mas também de raça.

MOVIMENTOS RURAIS

Na América Latina, 40% das mulheres rurais com mais de 15 anos não possuem renda, apesar de trabalharem diariamente (FAO, 2017). A enraizada separação entre o produzir e reproduzir faz-se, usualmente, mais evidente no meio rural. O mito se baseia na ideia de que o homem trabalha na produção e colheita, enquanto que a mulher cuida da casa. No entanto, o que se observa é que enquanto o homem trabalha para empresas agrícolas, as mulheres se dedicam à produção e colheita para sua subsistência e de sua família, ao comércio dos excedentes, além de cuidar do lar, dos filhos e anciãos. Essa sobrecarga invisível de trabalho não remunerado soma-se a um contexto onde as mulheres raramente chefiam as terras onde trabalham. Segundo a FAO (Ibid), 30% das fazendas no Chile, Jamaica e Santa Lúcia são chefiadas por mulheres. Esse número chega a 8% no Brasil, Guatemala e Belize.

Mulheres rurais se organizam por toda América Latina para provocar mudanças neste cenário. Na Argentina, o Movimiento Campesino de Santiago del Estero (MOCASE) luta pela autonomia feminina sobre as terras que habitam e trabalham. No Paraguai a Coordinadora Nacional de Mujeres Rurales de Indígenas (CONAMURI) aponta que 35% das mulheres rurais no país vivem  abaixo da linha da extrema pobreza e atua pela 'inserção das mulheres no cenário político e nas tomadas de decisões’ (Pereira, n.d) através de eventos que resgatam práticas produtivas ancestrais e promovem a luta contra agroquímicos. No Chile a Asociación Nacional de Mujeres Rurales e Indígenas realiza cursos para fortalecer a capacidade dessas mulheres em realizarem intervenção política, cultural, social, econômica e técnica (ANAMURI, 2018).  Além da Red de Mujeres Rurales de América Latina y del Caribe (Red LAC), formada por mulheres rurais do Brasil, Bolivia, México, Nicaragua, Perú, Argentina, República Dominicana e Uruguai, crucial no compartilhamento de experiências e estratégias.

MOVIMENTOS INDIGENAS

Mulheres indígenas resistem à tríplice discriminação: de gênero, de cultura e econômica. Entre as centenas de etnias presentes na região latino-americana estão mulheres que se organizam para lutar pela terra, educação, saúde e para apoiar umas às outras. Cabe ressaltar que muitos desses povos são matriarcais, como os Tupinambás, no Brasil, onde a maior liderança da comunidade e dos núcleos familiares são mulheres. Enir Bezerra, do povo Terena, foi a primeira cacique a ocupar o cargo de liderança de todo o estado do Mato Grosso do Sul no Brasil, estado onde se encontram mais de 73.000 indígenas entre 7 etnias (Azevedo, 2011). Enir Terena, como ficou conhecida, lutou para ampliar o acesso à educação, construiu uma escola na região e transferiu famílias inteiras para moradias dignas.

A luta das mulheres indígenas tem início no combate à visão que as coloca como “outras” que, quando não silenciadas, são vistas como um grupo homogêneo em uma região em que as sociedades indígenas somam 826 povos, segundo relatório da CEPAL (2014). Ademais, a maioria desses povos ainda luta contra a mentalidade colonial que os coloca como atrasados, quando não, um empecilho para o desenvolvimento econômico por governantes locais. É possível identificar algumas pautas em comum entre as mulheres indígenas, como a necessidade de se reconhecer as desigualdades no exercício de seus direitos políticos, econômicos e sociais. As mulheres indígenas são afetadas por violências que vão além do entorno doméstico, sendo raramente incluídas no processo de formulação de políticas de desenvolvimento local (CEPAL, 2013).

No México, as mulheres indígenas criaram em 1997 a Coordinadora Nacional de Mujeres Indígenas que é, até os dias atuais, o principal grupo nacional de luta contra as diversas formas de exclusão social. Entre suas conquistas está o aumento da representatividade das mulheres indígenas em órgãos decisórios regionais e internacionais, como no Foro Permanente das Nações Unidas para as questões indígenas (Cruz, n.d.). A articulação das mulheres indígenas latino americanas conseguiu que fosse incluído no documento final da XI Conferencia Regional sobre la Mujer, Brasilia 2010, a necessidade de se reconhecer valorizar a contribuição que a mulheres indígenas para a cultura, sociedade e economia de seus países (CEPAL, 2013). As constantes movimentações deste grupo refletiu em um real aumento de leis e políticas públicas direcionadas a melhorar a qualidade de vida das mulheres indígenas.

Não há de se ignorar a magnitude do caminho que ainda deve ser percorrido na América Latina e Caribe. Segundo relatório do World Economic Forum (2019) há uma estimativa de que levará 59 anos para que a igualdade entre homens e mulheres seja alcançada na região. Apenas dois países latino-americanos estão no ranking dos 20 países com menor desigualdade de gênero no mundo: Nicarágua e Costa Rica nos 5º e 13º lugar, respectivamente. No entanto, ainda mais forte estão as vozes das mulheres latino-americanas que, cientes da suas realidades, fazem da resistência um instrumento para a existência.

(updated 17/01/2020)

 

There is no silence: Feminist movements in Latin America and the Caribbean

Latin America is the birthplace of the artist Frida Khalo, the political activist Marielle Franco, and the Nobel laureate Rigoberta Menchú. Also, Latin America is a region where women are still seen as unintellectualized, depoliticized, and voiceless.

Globally, men and women still maintain a colonial thought that women on the "periphery of the world" need to be saved from their people, as Spivak (2012) states, "White men are saving dark-skinned women from dark-skinned men." Before heading forward, it should be understood that there is a patriarchal structure present in Latin America; indeed, it affects the achievement of gender equality. However, this dynamic, which is not restricted to Latin America, does not silence or diminishes the strength of Latin American women who continue to unite and conquer spaces historically regarded as masculine. Their movements reflect the heterogeneity of the continent. And, they are present in urban, rural, and indigenous environments, to name a few, facing different levels of discrimination depending on the intersectionality of their existence.

URBAN MOVEMENTS

Latin America and the Caribbean region follow a worldwide trend of greater representation of women at different educational levels. According to a report by the United Nations (2014), for every 128 women enrolled in higher education are 100 men. In elementary school, the ratio is 107 girls to 100 boys. However, there is a need to analyze the data with racial specificities. In Brazil, for example, while 17.7% of white women have completed higher education, this is a reality for only 6.7% of black women (IBGE, 2010). For some of these women who have access to education, the ability to finish their degree becomes a challenge.The lack of public transportation, daycare centers, various forms of harassment, social pressure to dedicate exclusively to their husbands and children, among many other factors, make it harder for women to conclude their education. Moreover, there is the struggle for the right to live without any violence in a region where out of the five countries with the highest rates of femicide in the world, four are within Latin America: El Salvador, Colombia, Guatemala, and Brazil (Vilela, 2019).

From this context, movements such as Ni Una Menos, which emerged in Argentina in 2015, hit the streets of Chile, Peru, Bolivia, Paraguay, Uruguay, El Salvador, Guatemala, Mexico, and even spilled over to the United States, and Spain (The Guardian, 2016). This movement denounced the unsafe reality to which women are exposed in the region. Ni Una Menos was joined by other similar movements such as # 24A in Mexico and Red Naranja in Venezuela.

As mentioned above, race economic inequalities condition women to urban spaces with restricted access to benefits of basic infrastructure. 25% of black women in Brazil do not have access to the sewage system, while this is a reality for 17% of white women (IBGE, 2017 cited in BKR, nd). With special attention to the inequalities that arise from the racial intersectionality faced by women, they created the Network of Afro-Latin, Afro-Caribbean, and Diaspora Women in the Dominican Republic in 1992, along with the Latin American and Caribbean Network of Black Women in San Bernardo in 1987, and other organizations fighting for the end of non-discriminatory practices towards black women.

RURAL MOVEMENTS

In Latin America, 40% of rural women over 15 years old have no income despite their daily work (FAO, 2017). The rooted segregation between production and reproduction is more evident in rural areas. The myth is that while men work in the production and harvest, the women take care of the household. However, it is observed that while men work in agribusiness, women dedicate their time to the food's production and harvest to feeds their families, to trade surpluses, as well as to take care of their homes, children, and elders. This invisible overload and unpaid work add to a context where women rarely own and control the land that they work. According to FAO (Ibid), 30% of farms in Chile, Jamaica, and Saint Lucia are headed by women. This number reaches 8% in Brazil, Guatemala, and Belize.

Rural women are organized throughout Latin America to promote change. In this scenario, in Argentina, the Rural Movement of Santiago del Estero (Movimiento Campesino de Santiago del Estero (MOCASE)) fights for women's autonomy over the lands they live and work on. In Paraguay, the National Coordinator of Indigenous Rural Women (Coordinadora Nacional de Mujeres Rurales de Indígenas - CONAMURI) points out that 35% of rural women in the country live below the extreme poverty line, so, CONAMURI acts by inserting women into the political landscape and decision-making (Pereira, nd) through events that rescue ancestral productive practices and promote the fight against agrochemicals. In Chile, the National Association of Rural and Indigenous Women (Asociación Nacional de Mujeres Rurales e Indígenas) promotes courses to strengthen the capacity of these women to carry out political, cultural, social, economic, and technical intervention (ANAMURI, 2018). Finally, there is the Latin American and Caribbean Rural Network of Women (Red de Mujeres Rurales de América Latina y del Caribe (Red LAC)), a crucial net that share experiences and strategies for women.

INDIGENOUS MOVEMENTS

Indigenous women resist triple discrimination of gender, culture, and economy. Among the hundreds of ethnic groups in the Latin American region women are organized to fight for land, education, health, and support each other. It is noteworthy that many of these people are matriarchal, such as the Tupinambás in Brazil, where women are the community and family leaders. Enir Bezerra, of the Terena people, was the first woman to occupy the leadership of the entire state of Mato Grosso do Sul in Brazil, where there are more than 73,000 indigenous people among seven ethnic groups (Azevedo, 2011). Enir Terena, as she became known, fought for improved access to education, built a school in the area, and transferred entire families to decent housing.

The struggle of indigenous women begins with the fight against the common perception that sees them as "others" who, when not silenced, are seen as a homogeneous group in a region in which the indigenous groups sum up 826, according to a report from ECLAC (2014). Moreover, most of these peoples still struggle against the colonial mentality that places them as backward and, not rarely, as barriers to economic development by arguing that agribusiness could make profits in lands where indigenous live. It is possible to identify some common ground among indigenous women, such as the need to recognize inequalities they face to exercise their political, economic, and social rights. Indigenous women are affected by the violence that goes beyond the domestic environment, once they are more likely to be excluded from the local development of policies (ECLAC, 2013).

In Mexico, indigenous women created in 1997 the National Coordination of Indigenous Women (Coordinadora Nacional de Mujeres Indígenas), which is, until the present day, the main national group to fight against the various forms of social exclusion on indigenous women. Its achievements include the increase in the representation of indigenous women in regional and international decision-making bodies, such as the United Nations Permanent Forum on Indigenous Issues (Cruz, nd). The articulation of Latin American indigenous women has made it possible to include in the final document of the XI Conferencia Regional sobre la Mujer, Brasilia 2010, the need to recognize indigenous women's value to their countries' culture, society, and economy (ECLAC, 2013). The constant movements of this group reflected in a real increase in laws and public policies aimed at improving the quality of life of indigenous women.

The magnitude of the gender gap in Latin America and the Caribbean should not be ignored. According to the World Economic Forum (2019) report, it is estimated that it will take 59 years for gender equality to be achieved in the region. Also, only two Latin American countries are in the ranking of the 20 countries with the lowest gender inequality in the world: Nicaragua and Costa Rica in 5th and 13th place, respectively. However, even stronger are the voices of Latin American women who, aware of their own realities, make resistance an instrument for existence.

REFERENCES

  1. ANAMURI. (nd.). "“Quienes somos”. Asociación Nacional de Mujeres Rurales e Indígenas". Retrieved Sunday, November 17, 2019.
  2. CEPAL. (2013). "Mujeres indígenas en América Latina: dinámicas demográficas y sociales en el marco de los derechos humanos". Centro Latinoamericano y Caribeño de Demografía (CELADE)-División de Población y División de Asuntos de Género de la CEPAL..
  3. FAO. (2017). "Women in Latin America and the Caribbean face greater poverty and obesity compared to men". Chile: Food and Agriculture of the United Nations. Retrieved Friday, November 15, 2019.
  4. IBGE. (2014). "Estatísticas de gênero". Retrieved Wednesday, October 30, 2019.
  5. Lorena Izá Pereira. . (nd). "A luta pela soberania alimentar no Paraguai". Retrieved Tuesday, November 5, 2019.
  6. Marta Maria Azevedo. . (2011). "O Censo 2010 e os Povos Indígenas". Povos Indígenas no Brasil. Retrieved Monday, October 14, 2019.
  7. Spivak Gayatri Chakravorty. . (2014). "Pode o subalterno falar? ". Belo Horizonte: Editora UFMG.
  8. The Guardian. (2016). "Argentina's women joined across South America in marches against violence". Retrieved Saturday, October 5, 2019.
  9. World Economic Forum. (2019). "Global Gender Gap Report 2020". Switzerland: The World Economic Forum. Retrieved Wednesday, December 18, 2019.

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Juliana Bernardino
Juliana Bernardino is a graduate student of International Development at the University of Pittsburgh, Graduate School of Public and International Affairs. She holds a Latin American Social and Public Policy fellowship with the Center for Latin American Studies while pursuing a Certificate in the same field. Juliana holds a B.A. in International Relations from the Universidade Estadual Paulista (UNESP) in Brazil, and her areas of interest include social protection policies, poverty, inequality, gender, development, and rural development.