A caixa de Pandora

August 5, 2020

Pandora se mirava em um espelho

Que refletia a cosmogonia de outros seres

Ansiosos por encontrarem o silêncio...

Até que ela virou-se para mim que a esperará

E prometeu-me mostrar o seu Segredo

Que unia e separava nossos gritos.

 

Qual o trovão que rompeu o eixo do universo

E rompeu o crânio de todos que viviam? Qual

A noite que transformou os fantasmas em sombras

E fez que pensassem serem homens? - Apenas

Sei que encontrei-me semivivo entre os defuntos

E que Pandora como um sonho escondia sua face

(Sua face sob seus cabelos negros como a lua)   

E que lentamente levantei-me do meu corpo

E vislumbrei um mundo não escuro porém claro,

Claro como um deserto de casas, homens e ruínas

Recoberto; de casas, homens e ruínas,

Asfixiados por terríveis névoas milenares...

Então Pandora, altiva, ao recortar-se entre as ruínas 

Parte dessa névoa desmembrou           

E com seus dedos o véu do cosmos espargiu;

Por aquelas ruas sempiternas caminhamos,              

Enquanto as casas cada vez eram mais pobres,

E tudo, árido árido  árido

Repetia-se no mesmo céu eterno e fugitivo

Como se estivéramos a reviver as nossas mortes...

Dentro das casas viam-se homens e mulheres 

Indefinidamente iguais como espelhos

E dentro das casas, das tabernas, das alcovas 

Viam-se lagartos a escorrer de olhos ocos                            

Enquanto pelas ruelas solitárias esqueletos          

Espalhavam-se fincados nos detritos

Como árvores que pelo vento se plantassem

E que do rio de esgoto se nutrissem;

Até que o sol foi eclipsado pelas sombras

E o céu ermo de sois e de estrelas transformad

Em um deposito de todos os matizes da tristeza.                                                  

Ao chegarmos ao antro mais miserável da cidade

Onde a solidão como um pássaro-morto era completa

Ela mostrou-me a caixa na qual os raios de sol se extinguiam

E onde os gritos se concentravam em silêncio,  

E eu lhe perguntei: “Qual é a história desta caixa, Pandora? Eu quero

Ouvir a história desta caixa, Pandora!!!!!!!!!!”

O piso de vidro a qualquer momento iria sucumbir-nos

O céu a qualquer momento nos tragaria em seu ventre

Os últimos pássaros fugiam para a Tebas desolada

As sombras fugiam dos crânios e nos sepulcros se fincavam

Ela abriu os braços e começou a girar sobre si mesma

E, histérica histérica histérica

Se desnudava e ria repetindo  

Algo que eu podia sentir

Mas jamais entender:

 

 “Todos nós somos órfãos. Não porque nossos pais tenham morrido                                                             

               Mas sim porque jamais existiram”

  “Você quer ouvir a história da morte?

 

A morte nasceu em um dia em que tudo estava vivo

E todos a olharam espantados, epilépticos, perplexos

E se perceberam todos mortos, mortos, mortos,

Mortos como as árvores, as pedras, o rio, o oceano

Mortos como as montanhas, os vulcões, o céu, a tempestade

Mortos como tudo o que não chora por ser morto

ESTA É CAIXA DE PANDORA DE PANDORA DE PANDORA

Então a morte como um ovo sem casca foi se abrindo

Até habitar o âmago do âmago do homem

E os Deuses e Mitos começaram a brotar d’alma humana

Como se da caverna os morcegos da escuridão se afugentassem

E a Terra foi se transformando em um espectro inacabado

De tudo o que os homens faziam para livrar-se do seu fado

ESTA É A CAIXA DE PANDORA DE PANDORA DE PANDORA

E os homens construíram templos, igrejas, cidades

Mumificaram seus cadáveres com o adubo de seus feitos

Transformaram-se em estátuas insípidas de esterco

Empilharam livros contendo nada além do seu o vazio

Mas as cidades tornaram-se mais vivas do que eles

Mesmo sendo desertas como um sonho sem imagens

E os templos e igrejas foram se incendiando pouco a pouco

Como a luz que expira no próprio nascimento

ESTA É A CAIXA DE PANDORA DE PANDORA DE PANDORA

E se colocasses no crânio uma mágica lanterna

E visses o que está por trás de cada universo aprisionado

E se penetrasses no escuro, nessa lua

Verias uma fileira de homens ocos, desolados

Sob uma ponte entre o mar e suas rezas

A buscarem as estrelas que regozijam a mãe-terra

Mas, ao olharem bem, o céu é todo chumbo

E a alegria não é mais do que uma nuvem,

ESTA É A CAIXA DE PANDORA DE PANDORA DE PANDORA

Não há flores que escondam o epitáfio em que nascemos!

Não há sois que brilhem na noite que morremos!

Então por que temes, em teu quarto, no escuro, na surdina

Que venham bater em tua porta e dizer: “vim te buscar eu sou a morte?”

Nós somos a morte, somos nós a máscara escarlate!

Giramos em uma chama, chama adentro

E ardemos pois a chama de nós se alimenta

¡ESTA É A CAIXA DE PANDORA DE PANDORA DE PANDORA!

Somos a dor, não só a morte mas a dor

¡ESTA É A CAIXA DE PANDORA DE PANDORA DE PANDORA!!

Suas vestes haviam caído seu corpo estava nu como um sepulcro   

Se olhares para o fundo desta caixa

Verás que há a espera jamais a esperança

 

¡¡¡ESTA É A CAIXA DE PANDORA DE PANDORA DE PANDORA!!!
Tudo o que era sofrimento agora é caos

¡¡¡ESTA É A CAIXA DE PANDORA DE PANDORA DE PANDORA!!!!

¡¡¡A CAIXA DE PANDORA DE PANDORA DE PANDORA!!!

¡¡DE PANDORA DE PANDORA DE PANDORA!!

¡DE PANDORA DE PANDORA DE PANDORA!

DE PANDORA DE PANDORA DE PANDORA 

 

About Author(s)

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Gonzalo Bolliger
Gonzalo was born in Lima, Peru, in 1989, but he has been living in Brazil since 1994. He has always had an enormous need to express himself and his internal perception of the world. So as soon as he started writing (when he was 14 years old), he understood that art, in general, was the perfect way to accomplish it. He has studied languages at the University of São Paulo (USP), and nowadays, he works as a writer, a teacher, and translating papers. He will be publishing all his written works and poems this year, 2020.