Lugares da memória: História feita em casa

October 20, 2016

Lembro de ouvir quando criança as histórias que minha mãe contava misturando coisas que ela viveu e coisas que ouviu. Minha mãe cresceu ouvindo histórias dos irmãos e conhecidos sobre os pais, pois sua mãe morreu quando ela tinha 3 anos e o pai aos 4. Os pais que ela conhece e que nos mostrou em suas histórias foram os pais construídos a partir de fragmentos da memória de outros, e que ela rearranjou em sua mente. Também as histórias contadas por meu pai e minha avó materna, que viveu até 2012, narravam as vidas de minha avó e de meu avô, que foram marcadas pela migração do estado da Bahia para o Paraná e depois para São Paulo. Eram temas destas histórias o casamento de meus avós, a relação frágil de minha avó com seu pai e a separação e o reencontro com os irmãos que também haviam migrado para diversos lugares no país.

As histórias são muitas e não poderei aqui descrevê-las. Foi lecionando no Ensino Médio e com a pesquisa de mestrado, “Lugares da memória: a vivência da migração nordestina no interior paulista entre avós e netos” (2014), que percebemos que há uma distância entre a história contada pela família e a história ensinada na escola. Perguntando aos alunos da segunda série do Ensino Médio se eles possuíam algum parente migrante, ao contrário do que imaginava com base em minha experiência em ouvir histórias, poucos alunos confirmaram possuir parentes migrantes e em sua maioria se referiram aos imigrantes italianos e japoneses. Mas o que esses jovens sabiam sobre a história de suas famílias?

A pesquisa de mestrado que surgiu com essa questão foi realizada com moradores migrantes nordestinos da década de 1950 e 1960 residentes na cidade de Barbosa, região noroeste do estado de São Paulo, e crianças netas de migrantes nordestinos com idades entre 11 e 12 que estudavam no 6º ano do Ensino Fundamental na única escola pública da cidade. Procuramos indagar sobre como a história da migração dos avós era contada aos filhos e netos, e saber como estes filhos e netos incorporavam essas histórias na sua vivência. Descobrimos que os avós constroem o que chamamos de Lugares da Memória, que são lugares não apenas físicos, mas que contém elementos que favorecem o surgimento da memória da migração e da história de família. Lembremos que entre as décadas de 1930 a 1960 o governo do estado de São Paulo subsidiou a migração de nordestinos para o interior, especialmente para o trabalho nas lavouras de café em substituição ao trabalho do imigrante italiano. Além do auxilio do governo houve uma migração incentivada pelos fazendeiros do interior, e intensificada pelas redes familiares (PAIVA, 2004).

O conceito de lugares da memória foi proposto por Pierre Nora (1993), para quem estes existem onde a memória viva não existe mais, ela se cristalizou em documentos, museus, registros. Contudo, pensamos estes lugares da memória como lugares de socialização da memória (HALBWACHS, 1990), pois durante a pesquisa observamos que esta memória está viva e é compartilhada dentro da família de migrantes. Os lugares da memória surgem a partir de fotografias de família, muitas delas trocadas em cartas depois da migração entre a família que ficou no lugar de origem e a família que migrou. Também é comum nas casas dos migrantes as fotografias penduradas nas paredes como retratos, e fotografias pintadas por retratistas. Geralmente são retratos de casamento, ou de membros da família. Os pintores destes retratos transformavam as fotos 3x4, mudavam as roupas, o cabelo, colocando aquelas pessoas em uma posição mais valorizada na sociedade, em roupas de respeito. Na fotografia no final deste texto está dona Sebastiana, uma das migrantes entrevistadas, com sua mala e o retrato de seu casamento. Mas estes lugares da memória também surgem nas festas e encontros de família; nas histórias de sofrimento e de superação das dificuldades encontradas pelos migrantes tanto no lugar de origem quanto no de destino. Essas histórias possuem um propósito, o de ensinar uma ética do grupo às futuras gerações, da maneira de ser e agir boas e más: se algo foi conquistado facilmente, sem sofrimento, significa que a pessoa não usou de procedimentos honestos, bons, para conseguir determinado fim.

Percebemos que as crianças possuem uma relação próxima com alguns avós, mas o fato de alguns morarem em outra cidade ou terem falecido faz com que os pais assumam a necessidade de contar as histórias da família. Algumas crianças disseram não se lembrar de ouvir histórias sobre os familiares, porém elas sabem contar sobre a vida deles. Sabem contar quem são os avós, com quem se casaram, como era a vida dos pais na infância, etc. Tratam-se de níveis diferentes de entendimento e narrativa. Uma coisa é se lembrar das histórias contadas, outra é se lembrar do momento em que os pais ou avós contam as histórias, e outra coisa ainda é incorporar as informações passadas através das histórias familiares. Então, precisamos considerar estas três dimensões para afirmar que as crianças possuem informações sobre a história de vida da família e, portanto, que há uma narrativa da migração implícita nestas histórias.

Todas as crianças mencionaram a história da migração. O que vimos é que estas histórias não são o elemento central da narrativa, mas são contados como contexto de outro fato narrado. Para os filhos de migrantes existe uma narrativa de superação do sofrimento mais forte, pois os filhos viveram com os pais os primeiros anos após a migração. Com os netos foi possível perceber que não se trata de uma narrativa de superação do sofrimento. Isso porque os netos não são migrantes, e em muitos casos não compartilharam com os avós os primeiros anos após a migração. Assim, as crianças observam os avós como participantes de um passado mais distante. Para os netos, não é o fato de os avós terem migrado que define quem o avô é, mas se trabalhou ou não na infância, se foi criado pelos pais ou não, se conta as histórias do Lampião, da cobra, do lobisomem. Mesmo neste caso, as narrativas contam histórias de sofrimento, de separação, de trabalho durante a infância, mas também histórias envolvendo elementos místicos e com valores morais implícitos, como as histórias sobre filhos que desobedeceram aos pais e tiveram punições.

Como parte da investigação, vasculhamos nos planos de ensino de 1º ao 5º ano da escola municipal da cidade, escola Gabriel José Martins, e no currículo do estado de São Paulo do Ensino Fundamental Ciclo II, de 6º ao 9º ano, e Ensino Médio, possíveis conteúdos que se referissem à migração nordestina e às histórias de família.

O que percebemos com este levantamento é que há possibilidades formais de a história da migração nordestina ser ensinada, porém esta não é inserida no ensino como migração nordestina para o interior de São Paulo. No ensino formal, seguindo o senso comum entre os paulistas, a migração para o interior de São Paulo é a imigração de italianos, e a migração nordestina é aquela direcionada para a capital. Porém, principalmente no Ciclo I, de 1º ao 5º ano, é possível resgatar a história desta migração a partir das histórias de família dos próprios alunos, de tal modo que estes possam compreender suas histórias privadas como parte de um todo social.

A resposta que obtivemos dos alunos em nossa primeira indagação na sala de aula sobre se tinham parentes migrantes pode ser explicada também por esta distância entre a história contada em casa e a história ensinada na escola. Os alunos, por sua própria iniciativa, não conseguem fazer relação entre datas e acontecimentos narrados em casa e a história oficial.

O que propomos são lugares para que os alunos expressem seus conhecimentos sobre a história vivida pela sua família, de dentro para fora, buscando imprimir à história suas características particulares e observar que este indivíduo não está sozinho, mas que esta também é uma experiência coletiva. Precisamos considerar que estes avós ou outros familiares contam suas histórias de vida de um modo diferente do fenômeno migratório observado pelas análises quantitativas ou de uma história dos grandes movimentos migratórios. Esses migrantes contam histórias de sofrimento, mas também de superação das dificuldades. Constroem um sujeito ativo, capaz de mudar sua posição na sociedade. Uma imagem que é velada ou negada na história dos grandes fluxos que dá ênfase na condição de miséria desta população migrante.

Mais do que entender como são construídos os lugares da memória na migração nordestina, queremos que esta pesquisa contribua para criar possibilidades para que as histórias da migração surjam no ambiente escolar. Isso poderia servir de modelo para que outras comunidades estejam atentas para os elementos pelos quais as crianças percebem a história e para a forma usada pelos parentes para ensinar sobre acontecimentos passados.

O que devemos levar em consideração para trabalhar a narrativa familiar na escola é, primeiramente, o ouvir. A criança pratica este ato de ouvir histórias em casa de modo não sistemático. Mas com uma atividade escolar o professor pode orientar a criança para um ouvir detalhado. Os avós contam histórias baseadas nas histórias que ouviram na infância, em um tempo passado, ou histórias construídas a partir de sua vivência. Tais histórias demonstram a dimensão cultural de um grupo tanto quanto histórias tipicamente folclóricas. É a partir deste ouvir detalhado que as histórias familiares podem ganhar legitimidade para os alunos. Em um segundo momento, estas crianças poderiam expressar estas histórias ou reconstruí-las.

As histórias contadas em casa não são apenas importantes por nos ensinar sobre nossa família, mas também por nos colocar como sujeitos ativos na sociedade. Vimos nos planos de ensino e no currículo das escolas públicas paulistas que há espaços para as histórias de família. Mas de alguma forma estas propostas não estão criando lugares da memória. Atividades em sala de aula ou extraclasse que considerem as características destes lugares da memória podem se aproximar mais da vivência do aluno na família e recuperar histórias sobre a migração nordestina, pensando a formação cultural do interior do estado de São Paulo. Isso pode ser feito acessando fotografias que contem sobre o lugar de origem e o lugar de destino e sobre histórias de vida, resgatando objetos de valor cultural ainda guardados por essas famílias, além de obviamente trabalhando a partir dos relatos dos alunos. Espera-se que a partir desta abordagem estes familiares se sintam mais próximos da escola e possam contribuir com visitas, colaboração em trabalhos escolares e contação de histórias.

Lugares da memória são assim lugares vivos, e existem com a vivência e troca de experiências entre as gerações. Se os lugares da memória não acontecem, parte do lugar, da história, do contexto social e cultural é esquecida pela história oficial. A memória da migração existe não para criar uma identidade ou para forçar uma identidade nordestina, pois para alguns migrantes essa noção de identidade com o lugar de origem é mais forte do que para outros. Mas sim como um compromisso ético “de não esquecer para não se perder” (MARTINS, 2011, p. 443). Até o momento estes avós estão vivos e contam suas histórias. Como educadores podemos contribuir para que essas narrativas não se percam e além de nos questionarmos sobre qual escola queremos construir. São histórias de um universo microscópico, mas dentro de um contexto maior que envolve políticas públicas. Contadas separadamente no ambiente da casa são histórias privadas, mas quando juntas com outras histórias paralelas se tornam públicas, coletivas, expressões de uma vida social rica e complexa.

Dona Sebastiana com o retrato do seu casamento

----------------------------------------------------------------------------------------------------

Bibliografia

HALBWACHS, Maurice. Memória Coletiva. São Paulo: Vértice, 1990.

MARTINS, José de Souza. Uma arqueologia da memória social. Autobiografia de um moleque de fábrica. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2011.

NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. In: Projeto História. Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História e do Departamento de História da PUC-SP. São Paulo: SP, 1993, nº. 10, pp. 07-28.

PAIVA, Odair da Cruz. Caminhos Cruzados. Migração e construção do Brasil Moderno (1930-1950). Bauru: SP: EDUSC, 2004.

SILVA, Cinthia Xavier da. Lugares da memória: a vivência da migração nordestina no interior paulista entre avós e netos. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Unesp, Marília, 2014. 

About Author(s)

Cinthia Xavier
Cinthia Xavier is MA in Social Science at UNESP - São Paulo State University. She studied the northeast migration to the interior of the State of São Paulo and how these memories were passed on within families. She studied issues as: migration's memory; places of memory; dialogue inter generational; and customs.